Bob Marley, se entre nós estivesse, completaria 80 anos em 2025. Tanto quanto sua ausência física é um fato, a presença do seu legado continua viva e vibrante.
Do gueto de Kingston, na Jamaica, Bob Marley difundiu o reggae, sua maior criação, em escala global. Não há notícia de outro músico que tenha perfurado com tanta competência e longevidade a bolha do showbizz da indústria musical, centrada, via de regra, nos EUA.
No Brasil, sua música ganhou audiência massiva, atravessando barreiras de raça, classe, gênero, geração e região. Apesar do caráter nacional, deve-se creditar ao Maranhão e Bahia o status de berços históricos do reggae no Brasil. Nesses estados, o negro, o mestiço e o branco das periferias tornaram-se seus receptores mais fiéis.
A notícia mais remota de um reggae sendo cantado no Brasil remonta ao ano de 1968, quando Jimmy Cliff, regueiro jamaicano, se apresentou no Festival Internacional da Canção.
No entanto, foi Gilberto Gil o responsável por massificar o reggae em terras brasileiras. Sua gravação de "Não Chore Mais" (1979), versão aportuguesada de "No Woman no Cry", de Bob Marley, ganhou o topo das paradas.
Em 1980, Bob Marley, considerado o soberano do reggae naquele período, aterrissou no Rio de Janeiro. Ainda que sem fazer shows, porque sua agenda visava apenas divulgar sua gravadora no Brasil, sua presença provocou um frisson no meio musical, nos fãs e, particularmente, na imprensa escrita e televisiva que noticiou sua estadia na cidade.
A presença do "astro" do reggae no Brasil contribuiu para consolidar uma audiência que vinha ganhando tração desde os anos 1970 nas periferias de São Luís do Maranhão e Salvador. Ressalta-se ainda que a "onda" reggae difundia uma estética musical ancorada nos símbolos culturais da diáspora negra.
O Seminário Bob 80 anos, organizado pelo CECAFRO, pretende estimular debates em torno do reggae e seu impacto no Brasil e no mundo. Visa, ainda, detalhar seus parâmetros históricos e filosóficos ancorados no pacifismo, no orgulho negro e no humanismo.
Bob Marley difundiu mensagens de amor, de orgulho "racial" e de valorização da África. Seu olhar considerava o continente berço cultural dos negros, e sua memória se ancorava na longa história do Egito e Etiópia antigos. Tudo isso, evidentemente, baseado numa leitura específica do Velho Testamento, transformada em uma religião: o rastafarianismo.
O reggae tornou-se veículo desse complexo conjunto de mensagens políticas e religiosas. Seria injustificado não dedicar um tempo de reflexão para uma efeméride relevante para a diáspora, a África, a Jamaica e o Brasil. Afinal, Bob Marley não foi apenas um músico, foi também um pensador dos grandes temas de nosso tempo.