Sessões Temáticas
Resumo das sessões
ST 01 - Espiritualidades Negras LGBTI+ E Justiça Ambiental
Resumo: Esta sessão propõe um espaço de escuta, troca e construção
coletiva sobre parte das espiritualidades negras LGBTI+ em diálogo com
justiça ambiental, interseccionalidade e resistência comunitária.
Partimos do reconhecimento de que espiritualidade, mais que prática
religiosa institucional, é dimensão política, ética e existencial das vidas
negras dissidentes, marcada por experiências de exclusão, reexistência e
reinvenção.
Pesquisas mostram que nas margens dos sistemas normativos, uma
grande quantidade de pessoas negras LGBTI+ constroem formas
próprias de fé, cuidado e comunidade. Em comunidades, terreiros,
igrejas inclusivas, redes de acolhimento e territórios periféricos,
emergem espiritualidades que não separam corpo, território e
ancestralidade. Essas práticas, por vezes, não apenas sustentam a vida
em contextos adversos, mas também produzem saberes que rompem
com a lógica colonial e cisheteronormativa dominante.
Nisso a presente sessão busca acolher experiências e reflexões que
pensem espiritualidade como campo de produção epistemológica e de
disputa política e que articule fé com justiça ambiental numa tentativa de
evidenciar como o racismo estrutural e a LGBTIfobia operam também
sobre os territórios, seja por meio do racismo ambiental, do apagamento
de memórias, da devastação ecológica ou da negação do direito à terra e
à moradia.
Afinal pouco se pensa como os corpos dissidentes e racializados são os
primeiros a sofrer os impactos das desigualdades ecológicas e os últimos
a serem ouvidos nos debates sobre o futuro do planeta terra.
Interessa-nos acolher perspectivas que não apenas falem sobre
espiritualidade, mas que façam espiritualidade em sua forma de narrar,
cantar, rezar, cozinhar, plantar, lutar. Por isso, esta sessão está aberta a
múltiplas formas de expressão e escrita: artigos, relatos de experiência,
práticas, performances, testemunhos e escrevivências, afinal
acreditamos que outro horizonte de espiritualidade é possível, forjado
na travessia das bixas, travestis, sapatonas, mães de santo, pastores
afros, curandeiras, educadoras negras e tantos outros corpos-epistemes
que desafiam a morte cotidiana com esperança ancestral.
ST 02 - Religião Popular e o Sepultamento como Ato Político e
Ecológico
Resumo: A ST (Sessão Temática)
"Religião Popular e Justiça
Socioambiental: O sepultamento como Ato Político e Ecológico" explora a
relação entre práticas religiosas populares, especialmente rituais
fúnebres, e a luta por justiça social e ambiental. O estudo destaca como
o sepultamento, em contextos de marginalização, transcende sua
dimensão religiosa, tornando-se um ato de resistência política e
compromisso ecológico.
A religião popular é analisada como um espaço de reexistência, onde
comunidades oprimidas transformam o luto em denúncia contra
violências estruturais, como a necropolítica e a degradação ambiental.
A
ST enfatiza que grupos vulneráveis são os mais impactados por crises
socioambientais, como poluição, enchentes e falta de acesso a territórios
dignos para sepultamento. Nesse sentido, os ritos funerários coletivos –
como os de vítimas de injustiças ambientais – assumem um caráter
político, reivindicando memória e reparação.
Além disso, a ST aborda o sepultamento como prática ecológica,
questionando a mercantilização capitalista da morte e propondo
alternativas sustentáveis, como cemitérios verdes e ritos que reintegram
o corpo à terra de forma harmoniosa. Por fim, o eixo temático articula
teologia e ecologia, defendendo que a espiritualidade popular pode
inspirar novas relações com o meio ambiente, baseadas no cuidado, na
justiça e na resistência. Em resumo, a ST demonstra que o ato de
sepultar, em contextos de desigualdade, é também um gesto de
transformação socioambiental, unindo fé, política e ecologia na
construção de um mundo mais digno e sustentável.
ST 03 - Racismo Ambiental, Religião e Zonas de Sacrifício
Resumo: A presente sessão temática se propõe a examinar, sob olhar
atento e crítico, as múltiplas formas de atuação do fenômeno religioso
nos interstícios mais esquecidos da sociedade — as chamadas zonas de
sacrifício. São as encostas de morros instáveis, as palafitas que desafiam
as águas, as penitenciárias onde o tempo se arrasta, as regiões
flageladas pelo rigor do semiárido, ilhas isoladas pela inércia do poder
público, cortiços densos e tantas outras geografias negligenciadas pelo
Estado, frequentemente assoladas pelos efeitos das mudanças
climáticas.
Nesses territórios à margem, onde o Estado se faz ausente e o futuro
parece interditado, a religião frequentemente assume um papel
assistencialista, preenchendo as lacunas deixadas pela ausência de
políticas públicas e tornando-se, por vezes, o único amparo possível
diante da adversidade cotidiana.
Essas espacialidades, marcadas por geografias de exclusão e resistência,
são majoritariamente habitadas por populações negras, herdeiras de
uma longa trajetória de expropriação e silenciamento no acesso à terra e
à dignidade.
Nestes territórios, o peso da história se faz sentir no
cotidiano: corpos negros comprimidos em espaços negligenciados,
vítimas de um racismo ambiental que se perpetua nas fissuras da
urbanização e da indiferença estatal. São sujeitos relegados à margem
das políticas reparatórias, alijados de ações efetivas que poderiam
mitigar as cicatrizes de um passado forjado pela violência e pela
desigualdade. Assim, os habitantes dessas regiões tornam-se
testemunhas e protagonistas de uma luta cotidiana contra as múltiplas
formas de injustiça, enquanto o Estado, ausente ou omisso, perpetua a
lógica de exclusão que sustenta o sofrimento e a resistência dessas
comunidades afrodescendentes.
No seio das regiões pelágicas que margeiam os grandes centros
urbanos, assim como nas comunidades rurais esquecidas, a proposta
desta sessão é acolher pesquisas que se debrucem sobre o papel das
religiões nesses espaços ermos, muitas vezes marcados por ambientes
lúgubres, carentes até mesmo do mais básico saneamento.
Convidamos trabalhos concluídos ou em andamento que investiguem
essas dinâmicas, descortinando as nuances e contradições da presença
religiosa onde o abandono estatal é mais agudo. Assim, buscamos
fomentar um debate sensível e profundo acerca das práticas religiosas
que, como rios subterrâneos, irrigam de sentido e esperança as
paisagens áridas das periferias humanas, ainda que, por vezes,
perpetuem dinâmicas de dependência e substituição do dever público.
Que esta sessão seja, pois, um espaço fértil para o diálogo e a crítica
diante dos dramas e reinvenções que marcam as zonas de sacrifício em
nosso tempo.
ST 04 - Mulheres Negras, Terra e Luta: Ecofeminismos em Resistência
Resumo: Esta sessão temática propõe refletir sobre as intersecções entre
gênero, raça, espiritualidade e meio ambiente a partir das experiências e
saberes de mulheres negras em territórios de luta. Ao convocar os
ecofeminismos negros, buscamos evidenciar formas de resistência que
emergem da relação ancestral com a terra, os corpos e os sagrados.
Mulheres negras , muitas vezes lideranças comunitárias e guardiãs de
saberes espirituais e ecológicos, protagonizam enfrentamentos às
violências ambientais, racistas e patriarcais nos campos, nas florestas e
nas periferias urbanas.
Esta sessão temática acolhe trabalhos que
problematizem as múltiplas dimensões da justiça ambiental sob uma
ótica feminista negra, com ênfase em temas como: espiritualidades
femininas ; territorialidades negras e cuidado comunitário; impactos de
gênero e raça das violências ambientais; práticas ancestrais de cura,
reexistência e sustentabilidade.
A sessão é aberta a pesquisadoras(es), militantes, artistas, lideranças e
mestras(es) de saberes tradicionais que reflitam sobre os enfrentamentos
e reconstruções que as mulheres negras vêm protagonizando na defesa
da vida, da natureza e das espiritualidades.
ST 05 - Entre o Sagrado, negritudes e a Destruição: Fundamentalismos
como Ameaça Ambiental
Resumo: A sessão temática “Entre o Sagrado, negritudes e a Destruição:
Fundamentalismos como Ameaça Ambiental” propõe refletir criticamente
sobre as conexões entre negritudes, espiritualidades, fundamentalismos
religiosos e justiça socioambiental. Em tempos de intensificação da crise
climática, observamos o avanço de práticas político-religiosas
fundamentalistas que, em nome de um suposto monopólio do sagrado,
negam a pluralidade espiritual e sustentam projetos de exploração
predatória da natureza. Essas dinâmicas impactam diretamente os
territórios negros, indígenas e tradicionais, produzindo violências
múltiplas: ambientais, epistêmicas, raciais e de gênero.
O debate parte do reconhecimento das espiritualidades afro-diaspóricas
como formas de resistência e de cuidado com a Terra, que entendem a
natureza como espaço sagrado e fundamentam cosmologias orientadas
pelo princípio da interdependência entre seres humanos e não humanos.
Tais concepções se contrapõem às lógicas de destruição ambiental
associadas ao agronegócio, mineração e projetos desenvolvimentistas,
frequentemente legitimados por discursos religiosos fundamentalistas
que demonizam práticas de matriz africana e desqualificam saberes
ancestrais.
Nesse cenário, o fundamentalismo religioso atua como vetor de
intolerância, reforçando racismos estruturais e negando o direito à
liberdade religiosa. Ao naturalizar a exploração da terra como mandato
divino, contribui para o avanço da devastação ecológica e para a
invisibilização de formas outras de espiritualidade que reconhecem o
planeta como sujeito de direitos. A mesa convida pesquisadoras(es),
militantes e lideranças comunitárias a discutir como os processos de
criminalização de religiões afro-brasileiras e a expansão de uma
religiosidade mercantilizada impactam a luta por justiça ambiental e
climática.
Assim, o eixo busca tensionar as fronteiras entre o sagrado, o político e o
ecológico, problematizando a forma como a colonialidade do poder se
reinscreve nos corpos, nos territórios e nas espiritualidades negras. Ao
mesmo tempo, abre espaço para valorizar as resistências que emergem
do cuidado ancestral, da oralidade, da memória e do pertencimento
comunitário. A sessão pretende, portanto, articular reflexões e
experiências que apontem para a construção de futuros sustentados na
justiça socioambiental, liberdade religiosa, pluralidade espiritual e
dignidade negra.